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Glória Menezes confundiu vida e ficção e ajudou a construir a teledramaturgia brasileira

23/08/2026

Glória Menezes confundiu vida e ficção e ajudou a construir a teledramaturgia brasileira

Glória Menezes: a atriz que desbravou a TV brasileira

Era comum que novelas exibissem, nos créditos finais, um aviso de que qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais seria mera coincidência. Mas, no caso de Glória Menezes, vida e ficção caminharam juntas durante quase toda a trajetória.

Filha de Nilo e Mercedes, ela nasceu Nilcedes. Os pais não queriam que seguisse a carreira artística, e a futura atriz chegou a esconder da família o trabalho na televisão. A resistência era tanta que a própria mãe acompanhava suas atuações sem saber que estava vendo a filha na tela.

Nos anos 1950, instituições exigiam autorização do pai ou do marido para que mulheres estudassem ou trabalhassem. Aos 17 anos, Glória encontrou um caminho para frequentar a Escola de Arte Dramática da USP: casou-se com um primo que autorizaria seus estudos.

O plano nasceu do amor pelo teatro. Com o tempo, o casal construiu uma relação afetiva e teve dois filhos.

“Só pra você ter uma ideia. A minha avó, mãe de meu pai, morreu sem nunca aceitar eu ser ‘Glória Menezes’.”

Depois de oito anos, o casamento terminou. Foi então que Glória iniciou sua trajetória na televisão, em uma época em que ninguém sabia exatamente como fazer novelas. Atores e atrizes ajudavam a criar, na prática, uma linguagem completamente nova.

Gloria Menezes e Tarcísio Meira na novela 'Espelho Mágico'

Acervo Grupo Globo

Para a atriz Rosa Maria Murtinho, a geração das pioneiras abriu caminhos para tudo o que viria depois.

“A Glória foi uma pioneira. A nossa geração foi pioneira, né? Nós metemos a cara pra fazer uma coisa que estava no princípio. Não se tinha certeza muito bem o que era, mas a gente foi acertando. e o pessoal agora já sabe", disse Gloria Rosa Maria.

Nos bastidores do teatro, Glória conheceu Tarcísio Meira. O primeiro romance aconteceu nos palcos.

“Eu estava no alto de uma escada, ele tava lá embaixo – era de época. Aí eu bati o olho nele assim e desci a escada lentamente. Olhando bem nos olhos dele. Aí ele me pegava e me beijava", contou a atriz sobre Tarcísio.

A parceria se estendeu para o cinema e para a televisão. Em “2-5499 Ocupado”, considerada a primeira novela diária da TV brasileira, os dois já eram casados e formavam também o par romântico da trama. A identificação do público era tão forte que muitas vezes os personagens eram confundidos com os próprios atores.

A relação entre realidade e ficção apareceria várias vezes ao longo da carreira de Glória. Em “Irmãos Coragem”, ela interpretou uma personagem com múltiplas personalidades. Mais tarde, tornou-se protagonista da primeira novela da televisão em cores. Em “Pai Herói”, seu figurino influenciou o comportamento do público, e muitas mulheres passaram a copiar o visual da personagem Ana Preta.

A mistura dos dois mundos alcançou um novo patamar em “Espelho Mágico”, quando Glória e Tarcísio interpretaram eles mesmos em uma novela dentro da novela. O casal se tornou uma das duplas mais populares da televisão brasileira.

Em “Guerra dos Sexos”, o autor Sílvio de Abreu escrevia pensando nos dois. Ele lembra do profissionalismo de Glória diante das crises de enxaqueca.

“Ela sofria de uma enxaqueca horrível que ela estava já tentando se livrar dela mas na época da Guerra dos Sexos era muito presente e ela se trancava no camarim, tudo escuro para ver se passava a dor e a dor não passava. Chegou a hora de gravar a Glória chamavam ela e ela entrava e a enxaqueca ficava no camarim, disse Sílvio de Abreu.

A ligação entre a vida pessoal e as novelas chegou também à família. Em algumas produções, Tarcísio Filho apareceu como filho do casal na ficção.

O público acompanhava essa proximidade com entusiasmo. A identificação foi tão grande que os dois ganharam um programa próprio, chamado “Tarcísio & Glória”.

Entre os muitos personagens marcantes da carreira, uma das mais lembradas foi Laurinha Figueiroa. A vilã ganhou um desfecho diferente do habitual: em vez de ser presa, tirou a própria vida para incriminar a rival.

“Eu queria dar a ela um final que fosse apoteótico, entendeu? Eu não queria fazer assim, a vilã que vai ser presa", conta o autor. “Então eu imaginei essa mulher que se mata de ódio da outra: ela morre para que a outra vá presa.”

A cena virou assunto nas ruas e até ganhou espaço em uma manchete real de jornal, ampliando mais uma vez as fronteiras entre ficção e realidade.

Glória Menezes em cena de 'A Favorita' (2008)

TV Globo / Frederico Rozario

A energia de Glória impressionava colegas e autores. Em “A Favorita”, o autor João Emanuel Carneiro se surpreendeu com o envolvimento da atriz com a personagem Irene. “Eu chamava ela de ‘Irene’. E me tocava, dizia: ‘dona, Glória, desculpa! Chamei a senhora de Irene’. Ela falou: ‘me chama de Irene sempre, eu sou a Irene pra você’.”

A dedicação ao trabalho acompanhou a atriz por toda a vida. Para interpretar uma paciente terminal com câncer, ela manteve a cabeça raspada durante dois anos.

A entrega também era visível na rotina pessoal. Segundo a fisioterapeuta Camila Imanisi, Glória mantinha uma disciplina rigorosa para se exercitar. Ela também testemunhou o carinho constante entre a atriz e Tarcísio Meira.

“Enquanto eu um fazia em um, o outro ficava presente no quarto. E quando ela deitava de lado, ele passava a mão e falava assim 'essa cinturinha...'”

Glória e Tarcísio estiveram juntos em metade das mais de 40 produções da atriz para a televisão e passaram juntos a maior parte da vida. A separação definitiva aconteceu durante a pandemia, quando os dois precisaram ser internados. Tarcísio não resistiu à Covid.

Mesmo depois da perda, segundo a fisioterapeuta, a atriz manteve a determinação que marcou sua trajetória. “Essa mulher muito viva e muito forte, mesmo depois do episódio do Tarcísio [...] mesmo fragilizada ela falava ok, vamos andar, ok vamos fazer isso".

Tarcísio Filho estava ao lado da mãe quando ela morreu. Ao lembrar da atriz, definiu sua partida como consequência de uma vida vivida intensamente.

“[...] Se me perguntarem ‘de que a sua mãe morreu', eu vou dizer sempre que foi de um excesso de vida. minha mãe era muito vivaz. muito cheia de vida. ela sorveu essa vida com todas as forças que ela tinha, de uma maneira muito bonita sempre.”

Ao longo das décadas, Glória Menezes acumulou personagens que ajudaram a escrever a história da televisão. "Sinto que trago um pouco de cada uma dessas personagens. Essas mulheres todas que eu representei, elas estão todas aqui ainda".

Não é mera semelhança. Glória Menezes ajudou a abrir caminhos para a teledramaturgia e construiu uma trajetória em que a vida e a ficção permaneceram entrelaçadas até o fim.

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